No Facebook uma postagem me chamou muito a atenção e por ela que eu quero começar os meus escritos. Um rapaz, no auge da sua indecência e ignorância resolveu usar a morte de Nico Fagundes como comparação para a morte do sertanejo Cristiano Araújo, e assim, ter seus 15 minutos de fama. Entre palavras e outras, espalhou seu lixo em forma de status para quem quisesse ver. Não é por nada que em questão de dias a postagem saiu do ar.

No começo da postagem o autor informou que nenhuma emissora fez algum tipo de homenagem para o grande Nico, porém fizeram, pequenas. Comentaram da morte dele como se fosse alguém quase sem importância nenhuma, sendo que uma emissora que dedicou quase o dia inteiro para o caso do cantor sertanejo usou somente 45 segundos para informar sobre a morte do outro. Quarenta e cinco SEGUNDOS, como se Nico fosse alguém para se descrever em meros segundos.

Muitos que postaram sobre o Cristiano sentiram pena pois ele era jovem e sua namorada mais ainda. É doloroso ver pessoas morrendo jovens quando tinham mais tanto para viver. Doloroso também é ver alguém como o Nico que se doou uma vida inteira por seus ideais, convicções e sua terra natal, morrer desta forma e obter tão pouca consideração pelo resto do Brasil.

Eu procurei em várias músicas (ilógicas) que Cristiano cantava, alguma que fosse de sua autoria. No meio delas achei um de seus maiores sucessos “Caso Indefinido”.

“E vai saber se um dia seremos nós
Nenhum beijo, para calar nossa voz
Um minuto, uma hora, não importa o tempo
Se estamos sós

Se você quiser
A gente casa ou namora
A gente fica ou enrola
O que eu mais quero é que você me queira

Por um momento ou pra vida inteira”

Esta é uma música bonita, boa de ouvir e sem asneiras. Agora uma outra que ele estourou no Brasil inteiro:

“E quando eu te pegar, você vai ficar louca
Vai ficar doidinha, doidinha dentro da roupa

Quando eu te pegar vou fazer diferente
Tenho certeza vai pirar a sua mente

A bebida tá subindo a cabeça enlouquecendo
O clima tá esquentendo so vai dar eu e você
Pra gente então fazer

Bará bará bará, Berê berê berê”

Me obrigo a rir cada vez que penso que alguém teve a capacidade de fazer sucesso com isto. Como mulher, não gosto de ler e ouvir letras como esta. Não gosto também de ver esses artistas fazendo aqueles gestos obscenos e o público quase tirando a roupa de tanto que gosta daquilo. Sei que não posso esperar muito de letras assim que são feitas especialmente para dançar, mas odeio ver que é isso que se sobressai no Brasil inteiro.

Crianças de 2, 3 anos já sabem o tal do “bará berê” e fazem os mesmos gestos ates mesmo de aprenderem cantigas de roda infantis, outros com 13 (ou menos) já colocam o “bará berê” em prática e depois aparecem as consequências. E isso, justo isso, é o que faz sucesso.

Por outro lado penso no Canto Alegretense criado por Nico Fagundes que praticamente todo gaúcho sabe de cor e todo brasileiro que tem algum interesse pela cultura do sul já ouviu:

” […] E na hora derradeira que eu mereça
Ver o sol alegretense entardecer
Como os potros vou virar minha cabeça
Para os pagos no momento de morrer

E nos olhos vou levar o encantamento
Desta terra que eu amei com devoção
Cada verso que eu componho é um pagamento
De uma dívida de amor e gratidão…”

E é claro que isto foi somente um trecho. E Poesia?

” […] E durante largo tempo
ficou a moça na porta
olhando a estrada, a chorar,
sem saber porque o marido
tem que partir e lutar.
Não entendia de guerra!
Pobre só vota em quem mandam
e desconhece outra coisa
que não seja trabalhar.

Montou e recorreu campo,
botou vaca, tirou leite
e arrastou água da sanga.
Fez do tempo a sua canga
no lento girar do dia
e quando as vezes parava
comovida, acariciava
o ventre, que pouco a pouco
se arredondava e crescia.

[…] Bendita mulher gaúcha
que sabe amar e querer!
Esposa e mãe, noiva e amante
que espera o guasca distante
e acaba por compreender
que a vida é um poço de mágoa
onde cada pingo d’água
só faz sofrer e sofrer.”

E no fim, é chorando que eu escrevo estas palavras. Chorando não apenas por uma morte, mas por toda a incompreensão e falta de respeito que existe. Choro por pensar que com tantos problemas a serem discutidos e tantas informações que poderiam estar sendo adquiridas as pessoas preferem compartilhar fotos de IML e fazer um estardalhaço em cima de um velório que deveria ser um momento de despedida íntima para a família.

Acho errado deixarem emissoras transmitindo isto como principal meio para trazer ibope. Acho inaceitável e choro pela lenda que teve que se despedir da terra que mais amava. Choro e o Rio Grande chora junto. E se for para concordar com alguma frase que o tal autor escreveu na sua postagem, concordo com a parte que muitos brasileiros tem cultura de bunda. É cultura de bunda sim, tem pessoas que tem muito o que aprender mesmo…

“O Nico Fagundes é dessas figuras que canalizava em todos os tempos e todas as horas, do simples até a poesia mais sofisticada. Era brincalhão e afável. Foi uma caminhada que ele prestou ao Rio Grande do Sul para valorizar a poesia e a cultura gaúcha. O RS já está em luto, tudo isso vem ao natural. Não precisava decretar luto, mas vai ser feito”, declarou o governador José Ivo Sartori.

“O Nico deixou um legado muito importante para a cultura do Rio Grande do Sul. Foi o criador dos Cavaleiros da Paz. Andamos 13 mil km a cavalo em vários países. Ele pediu para deixar a bandeira dos cavaleiros no caixão. Conheci na faculdade de direito. Nós convivemos como irmãos. Perdemos um homem fantástico. Ele superou tantas vezes a doença. Ele não queria morrer. Ele deixa legado em todas as áreas. Era multifacetário, e tudo o que fazia, fazia bem”, declarou o amigo de longa data Rodi Pedro Borghetti.

“Foi um dos maiores talentos da música e cultura gaúcha. Não apenas do Rio Grande, mas do Brasil. Éramos amigos e Nico era um grande contador de piadas. Ao lado de Paixão Cortes, um dos maiores tradicionalistas desse estado”, declarou o senador Lasier Martins.

“Ele simboliza toda a cultura que nós temos aqui no Rio Grande do Sul. Ele é uma das figuras mais importantes deste estado. Ele foi insuperável como letrista e folclorista. Estabeleceu conceitos sobre a nossa tradição”, exaltou o político Pedro Ruas.

E que descanse em Paz!

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