Um sobrenome chamado saudade, um nome chamado Graciela

Quando chega o mês de novembro, também chega o tempo de relembrar quem marcou na nossa vida e agora só faz doer nosso coração com a falta. Sinto saudades da minha madrinha que se foi, sinto saudade do meu tio, sinto saudades de muitas pessoas, mas uma em especial. Claro, sempre tem que ter uma pessoa que marca mais no nosso coração. Uma pessoa que deixa uma ferida maior, mesmo sem querer. Uma pessoa que se foi e que a gente daria muita coisa em troca para ter de volta… Mas infelizmente o que temos é o peito doendo e lágrimas rolando.

Muitos dizem que o tempo ajuda, mas não é sempre que o tempo consegue essa façanha. Alivia, mas não faz esquecer. Depois de sentir muitas vezes como é, passei a usar uma frase para acalmar meus sentimentos: “Nenhuma lágrima ajuda quando o coração chora”. As vezes o coração precisa de uma pausa para voltar a bater forte.

Quando menina eu morava com meus avós e minha mãe. Como minha mãe é mãe solteira, ela precisava trabalhar para conseguir o “pão de cada dia”. Não era só a boca dela para alimentar, era a minha também. Então eu ficava em casa, desde bebê aprendi a brincar sozinha. Porém, eu não estava sempre sozinha… Tinha a minha Iela, a Lela. Não é de se admirar, mas nosso vínculo era tão forte que as minhas primeiras palavras foram os apelidos dela. Brincávamos juntas, ela cuidava de mim, eu até era a companhia dela enquanto ela estava em casa. Quando eu estava com 2 anos de idade, ela deu a luz a um menino.

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Eu não era mais o centro das atenções, mas pelo menos tinha outra criança para brincar… Claro que nosso vínculo continuou, na verdade foi ficando até mais estreito… Quando eu tinha dúvidas e ela estava presente, eu corria até ela. Ela me mimava com canetas de glitter, adesivos para o caderno, vistoriava meus deveres de casa e sempre elogiava quando minha letra estava bonita ou havia um aviso positivo da professora no caderno. Sempre que nos encontrávamos, tirávamos um tempo para conversar.

Era engraçada a forma com a qual ela cuidava de si. Linda, um sorriso encantador… porém sempre tinha vergonha de si mesma. Nunca se achava bonita o suficiente… ou era o cabelo, ou não estava bronzeada o suficiente, ou até mesmo o cabelo não estava como deveria ser. Mas sempre linda, é assim que eu lembro dela. Linda, pena que a morte não deixou ela envelhecer tanto assim…

Quando ela descobriu a segunda gravidez, veio a notícia que ela estava com câncer. Foram feitas cirurgias, ela recebeu sangue várias vezes, mas nada ajudava realmente. Lembro daquele rosto abatido que tentava sempre continuar firme e forte. Lembro das nossas promessas inocentes do tipo “Vem Bruna, eu te ajudo a resumir isso aqui… não conta pra ninguém. Tu tens que sempre ler o parágrafo inteiro e escrever só o que é importante, faz isso em um rascunho e na hora de passar a limpo tenta tirar mais coisa ainda. Uma hora tu vais conseguir fazer isso sozinha!” e eu agradecia com um baita sorrisão na cara e ela me olhava orgulhosa. Quando eu penso parece que existem anos-luz entre aquela época e agora. Eu mandava cartinhas pra ela, ela me emprestava canetas com glitter. Eu dava blocos de fichário para ela e ela me ensinava códigos de enganar médicos. Era uma troca tão linda, assim como sempre tinha sido.

Eu nunca podia ir no hospital ver ela, até que decidiram que tinha chegado o momento. Eu sabia que ela estava doente, mas não achava que realmente aconteceria algo… no dia que eu iria a primeira vez visitá-la, ela morreu. Eu era uma menina ainda, uma menina perdendo uma das referências da infância. Uma menina perdendo uma mãe. Uma menina que não sabia como parar de chorar. Uma menina que chorava ao ver canetas glitter e adesivos coloridos em cadernos na escola. Lembro da sensação que eu tinha enquanto as primeiras semanas sem ela passavam. Eu ia no cemitério conversar com ela, mesmo que ela não me escutasse eu só queria contar para ela o que tinha feito, ou só limpar a sepultura para deixar a “casa” dela limpa. Que falta faz escutar a risada dela…

Dói escrever isso agora, nunca é fácil perder alguém assim tão próximo, alguém que tinha tanta vida pela frente. Ela que sempre torcia para eu ter um futuro lindo e cheio de realizações, não pode me ver agora. Eu nem pude me despedir… Não pude dizer o que ela representava para mim, não pude dizer um “eu te amo”. Pude ver um corpo no caixão, mas não pude ver esse mesmo corpo vivo dizendo “não chora Bruna, vai ficar tudo bem… se eu for, vou continuar sempre contigo”.

Eu choro, chorei e continuarei chorando enquanto a saudade continuar no meu peito. Não terei vergonha, conheci alguém que além de prima foi também uma mãe. E destino, bem que você poderia ter facilitado as coisas, não é?

Anjos do Hanngar era uma das bandas favoritas da minha “Iela” (os integrantes daquela formação eram super amigos dela) e esse show do dvd é a trilha sonora quando eu paro para lembrar com carinho de tudo o que passamos juntas.

E como na música:

Oh, baby, quanto tempo? Nem você imagina…
Vem de eras esse caos

Esse caos eu sei que se chama saudade, saudades dela!

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18 pensamentos

  1. Consigo sentir sua dor mas não imagino a intensidade. Tenho uma coisa que mantenho em mim e muitas pessoas da minha família me julgam pelo fato de nunca ir ao velório nem no enterro de quem se foi por que prefiro guardar memória de como eram.
    Se ainda escreve e pensa nela, sua memória nunca se apagará ❤

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    1. Essa última despedida eu evito o tanto que consigo, quando vejo pessoas chorando por um motivo desses eu me solidarizo e acabo seeeeempre chorando junto 😦 Mas sabe, quando você vai a um velório, você nao vai pelo que morreu, mas sim pelos que ficaram. Esses é que precisam de apoio… Esses que ficam é que eu acho complicado de lidar, ver o sofrimento em cada rosto e ver que a pessoa nunca vai voltar para amparar. A dor que você vê é a que você sente quando está no lugar, parece que só as lágrimas podem lavar a dor.
      Ela nunca sairá da minha memória, nem quando eu estiver velhinha vou esquecer. Pessoas especiais sempre tem um pedacinho da gente, nao importa para onde vão…
      Obrigada pelo comentário e as belas palavras!
      Beijos

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  2. Nossa, Bruna, agora que terminei de ler e vim comentar, não sei nem o que dizer…
    Seu texto está perfeito, uma linda homenagem, com certeza digna da pessoa que a inspirou. É muito difícil a perda de alguém muito querido, principalmente quando parte jovem, fica aquela sensação de que ela poderia ter vivido muito mais! Mas Deus sabe todas as coisas, e onde ela estiver agora, saiba que está muito feliz e orgulhosa da pessoa que você se tornou! 🙂
    Um xero

    http://mulherpequena.wordpress.com

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    1. Partiu com 28 anos Mari, muito nova para sofrer tanto assim 😦 Espero que ela esteja mesmo em um lugar lindo com a filha dela que faleceu uns anos depois da morte dela, elas merecem a eternidade juntas… Deus sabe o que faz e agora eu estou entendendo um pouco melhor as escolhas Dele, Ele também quer pessoas especiais consigo.
      Me conforta pensar que ela se orgulha de mim Mari, super obrigada pelas suas palavras!
      Beijos.

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  3. Pode chorar mesmo, Bruna. Sem vergonha, sem culpa… A lágrima, muitas vezes, é o amor que transborda. E, quando a gente sente saudade de alguém que se foi, deixar esse amor escorrer pelo rosto é uma das formas mais honestas de demonstrar o que a gente sente e o quanto aquela pessoa significa para nós.
    E que, num futuro próximo, olhar para canetas de glitter se torne uma lembrança doce ❤
    Beijos

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  4. Emocionante. E ver que tu ainda conseguiu escrever relembrando tantas coisas me deixa ainda mais emocionada.
    Orgulho me resume aqui, olhar o teu post e sentiro amor daqui, o mesmo amor que tenho pela minha mãe que também perdi sem realmente me despedir.
    Fica bem, Bru. Pode ter certeza que onde ela estiver tem muito orgulho de ti!
    Um abraço fraterno da catarina direto para a gaúcha na Alemanha, vivendo as realizações que a “Lela” tanto desejou.
    Beijo. ❤

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  5. Bruuuuu, que coisa linda!
    Me emocionei aqui..já senti isso na pele e sei como dói..e o pior, não aprendi como muitas acham que acontece..tenho medo de passar de novo com outra e outra pessoa..é complicado! Esse mês também me lembra uma pessoa muito especial que perdi..então estamos juntas nessa! ❤

    Nada do que falarem muda o que sentimos..mas acredito que o fato de desabafar e tudo mais ajuda..pelo menos pra mim!

    Tenha certeza que ela está bem feliz com suas lembranças, em especial hoje com esse post lindo..fique bem aí e o que precisar, você sabe, estou sempre disposta a te ouvir =)

    beijo imenso

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    1. Eu nao saberia lidar se acontecesse tudo isso de novo agora, dói só de pensar isso de novo. Lembro de que quando eu era criança eu sempre sonhava que minha mãe estava no caixao para o velório dela, e eu chorava dias… tanto que ia sempre dormir na cama dela de noite, Desabafar ajuda, mas eu choro demais quando coloco esses sentimentos para fora. Parece que tudo volta, sabe?
      Agradeço demaaais por todo esse carinho Luh, obrigada mesmo mesmo mesmo!
      Beijão!

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      1. É difícil mesmo linda! Eu também tive e às vezes tenho pensamentos do tipo..mas acho que tem que por pra fora sim..talvez numa dessas você ouve alguma coisa que ajude a melhorar..sofrer sozinho não é bom. Estamos um pouquinho longe ainda, mas conte comigo, sempre e sempre! Combinado?! ❤
        Beijão

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  6. Oh Bruna, que texto lindo e ao mesmo tempo, de partir o heart!

    Sei como é perder alguém o qual nos espelhamos e amamos, e nada do que as pessoas falem, vai preencher aquele vazio que ficou.

    Imagino como ela deve ter sido uma pessoa incrível e forte! 🙂

    Linda postagem, fique bem!

    =*

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