Eu, quem vos escreve, na infância brincava com meninos. Brincava e entrava em contato com as coisas que os meninos se interessavam e ainda por cima esquecia que era menina. Ao invés de brincar com bonecas, eu era o verdadeiro molecão: brincava de futebol, guerra, luta, jogos de carro no Playstation e de ninja defendendo o mundo (onde isso fazia sentido, eu não sei até hoje). Eu era aquela que brincava com meninos usando roupa rosa, elásticos coloridos no cabelo e com tatuagens coloridas que eu grudava depois de abrir a embalagem de chiclete. Meu padrinho as vezes vinha, me puxava apertando o meu braço e me mandava “ser mais menina”. Mas o que é ser mais menina?

De acordo com meu padrinho, o que as pessoas pensariam de mim, me vendo com os cabelos bagunçados, suja ou suada? Já não bastava eu ser filha de mãe solteira? Minha avó nunca entendia muito o que o fato de eu brincar com os meninos diferenciava na minha vida, mas sempre dizia que a única coisa que ela não queria, era que essas tais brincadeiras me tornassem violenta (ou algo do gênero). Eu continuava brincando com os meninos, sendo menina e agindo na forma que eu achava correto. Me machucava? Sim. Voltava as vezes com os braços cheios de espinhos? Sim. Dizia que ia cuidar mais na próxima vez e então voltava roxa, com o pé torcido ou um corte? Sim. Mas adorava.

Os anos foram passando, e outros comentários foram surgindo e sendo ditos perto de mim a respeito até de outras mulheres:

“Hey moça, fecha essas pernas! Que coisa feia uma mulher sentar desse jeito”

“Olha só aquela mulher lá! Ela deveria sentir vergonha de usar um vestido tão fechado/comprido assim!”

“Que falta de respeito é essa, olha aquela saia curta que a outra está usando… só quer é atiçar o marido alheio”

“Tão bonita e tão descuidada… se ela se arrumasse mais teria tudo e todos aos seus pés”

A mulher não pode arrotar, nem peidar, nem andar por aí desarrumada. Não pode usar roupa curta, mas comprida demais também é feio. Se amamentar em público, quer chamar atenção, se caminhar sozinha está pedindo para levar cantadas e comentários feios de pessoas desconhecidas. As vezes eu imagino que certas pessoas esquecem que mulheres são pessoas normais. Pessoas que talvez gostem de dormir nuas em um dia quente, que gostem de se sentar no sofá sem preocupar se a posição é feia ou não, que gostem de vestir leggings para andar por aí e gostem mais ainda do fato de que, como mulheres, ter um formato corporal diferente e único.

É feio isso? Não!

Feio é se sentir inferior. Feio é ficar com a musculatura da virilha doendo a cada vez que abrir as pernas por mais tempo por causa daquela velha situação de nunca abrir pra nada. Feio é sentir vergonha do corpo e mais feio ainda é ficar com vergonha da própria sexualidade e sensualidade.

De coisas feias, vamos a pior: Feio é sentir vergonha de ser mulher.

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