Meu maior ato de coragem

Coragem. Palavra pequena, mas com tanto significado. Apenas 3 sílabas que podem mudar todo o rumo de uma história. São atitudes, que as vezes nem precisam ser grandes, mas que te colocam em outro grande patamar.

Lembro muito da minha infância quando eu penso em coragem. Naquela época eu me sentia uma fracassada por não conseguir ter amigas. Chorava em silêncio, mas era corajosa por continuar firme e forte colocando a cara a tapa em várias situações. Era menina moleque, aquela que mesmo tristonha, não se deixava derrubar. Pessoinha ambiciosa que sempre queria mais, pelo menos no sentido de notas e aceitação.

Na puberdade, era outra zona de guerra que eu tinha que levantar o rosto e continuar. Naquela época, nunca me conformava a ser igual ao padrão. Não queria ter que pensar mais em maquiagem e garotos, do que no meu futuro. Não queria me deixar vencer para aquelas pessoas que me colocavam para baixo tentando me inferiorizar por eu ser gordinha. E daí se nenhum garoto gostasse de mim? Eu teria muito tempo no futuro para conhecer alguém que fosse me dar valor. Eu me renegava a aceitar que mulheres precisavam ser menos informadas que homens e tirar notas inferiores. Me renegava e tinha meus princípios.

Mas o meu ato mais difícil de todos? Ah, esse ainda tem seu tempo aqui.

No dia 13 de agosto de 2014 eu me mudei para a Alemanha. Sempre tinha vivido com os meus avós, com os quais tive muito contato e afeto. Eu tinha mais amor do eu imaginava. Era a filha que eles tinham tempo de cuidar e educar. Tive uma educação diferente do que muitos coleguinhas, uma educação rica em valores e virtudes. Essas coisas que eu aprendi, levo até hoje. Me mudei para uma cidade do interior, vivi 10 meses com uma família de desconhecidos. Lá eu tive que aprender a gostar de todos e de sobra tive muitas experiências para a vida.

Antes de eu sair para uma viagem mais longa, meu padrinho me disse: “Tu vais ver muita coisa no teu caminho que tu nunca nem imaginou. Vais sentir coisas lindas. Mas nenhum lugar vai ser tão lindo quanto o lugar onde tu se criou”. Naquele momento, ele não tinha ideia do que falava, mas eu lembrei disso por muito tempo. Depois daqueles 10 meses, a coisa que eu mais queria era ser abraçada pelos meus avós, me sentir segura e protegida naquela casa velha e de madeira onde eu sempre vivi.

Passei 3 meses lindos de férias com eles. Me apeguei mais ainda ao ver o quanto tinha sentido falta dos dois. Os meus dois velhinhos eram meu refúgio. Deixei eles lá, com lágrimas nos olhos e uma saudade inimaginável. Saí de lá com uma dor imensa no coração.

Voltei para a Alemanha, fiz meu ano social. Nas minhas férias em agosto de 2016, deixei de voltar ao Brasil pois fiz uma cirurgia. Nas férias de dezembro, deixei de voltar pois tinha muitas provas do atual curso que estou cursando. Perdi o Natal em família, perdi a festa de aniversário do meu avô que estava completando 90 anos.

Meu ato de coragem? Qual foi?

Em fevereiro, mais precisamente dia 13, minha vó nos liga dizendo que meu avô, aquele que tinha recém comemorado aniversário, havia morrido. Morreu com minhas promessas de que eu iria ir vê-lo em agosto, minhas próximas férias. Morreu, não me dando a oportunidade de estar lá e me despedir.

Meu maior ato de coragem é, e continua sendo, decidir viver afastada da família, amigos, terra natal. Deixar tudo de lado para que eu consiga conquistar o que eu sempre quis. Renegar tudo aquilo significa perder o nascimento da afilhada, dos filhos das primas, o próprio velório do avô, aquele que foi responsável pelo maior dos meus aprendizados: o amor.

Não estou sendo egoísta, estou tentando mostrar cada vez mais para mim, que coragem e força são as coisas que me colocam para a frente e me fazem seguindo minha vida. Coragem é o que me faz não largar tudo como está e voltar correndo pra casa. Coragem é o que me faz seguir morando em um lugar como esse, cheio de alemães que se acham superiores e que volta e meia são intolerantes.

Posso ser burra por ficar lutando, mas um dia serei a prova viva de que isso tudo vale a pena. Sigo, todos os dias, fazendo o nome Divergências Vitas ter sentido. É tanta coisa que muda e se renova na minha vida… não é fácil.

O mundo é tão grande. Por quê não se dar uma chance? Qual foi seu ato?

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27 pensamentos

  1. Ai, Bruh! Que dorzinha que eu senti… Mas já passou! Prefiro pensar que seu avô se foi feliz de saber que você estava construindo sonhos. E sabendo que os valores e o amor que ele lhe transmitiu jamais serão esquecidos. Eu continuo morando aqui com minha família, no meu ninho. Mas, mesmo sem ter vivido a experiência de viver longe, coloco essa decisão na lista dos grandes atos de coragem da vida.

    No mais, preciso dizer que me identifiquei com suas fases da infância e adolescência. Conheci essas lutas também. E estamos aqui, não é?! 🙂

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    1. Nosso passado nos moldou para sermos quem somos hoje. Fico chateada quando penso que um dia todos nós teremos que ir embora dessa vida, mas confortada que as lembranças que ficaram foram as melhores possíveis.
      O sentimento é extremamente agridoce 🙂
      Obrigada pelo carinho!

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  2. “Era solitária por saber mais do que eu deveria”. Sempre foi assim comigo. Lembro que, quando eu estava na primeira série do ensino fundamental, uma das minhas colegas disse que eu deveria parar de ler enciclopédias para não saber mais que o resto da turma. Também me sacaneavam muito porque eu era uma nerd estranha que amava coisas fofas, coloridas, flores, maquiagem e salto alto desde sempre, o que, em geral, é visto como contraditório. Quando eu era bem novinha (7/8 anos) até me incomodava não ser de nenhuma panelinha na turma, porém, conforme fui crescendo, dei-me conta de quem muitas vezes o grupo não é benéfico e que mais vale você tratar todo mundo com uma cordialidade padrão que ter um monte de amigo falso. Na faculdade mesmo muita gente só se aproximava de mim quando queria tirar xerox da matéria. No quinto período, após ver um pessoal colando da cópia do meu material, parei de emprestar e passei a ser desprezada. Mas não liguei, pois não perdia nada com os interesseiros longe de mim. Dos amigos amigos mesmo que tenho, poucos foram meus colegas diretos no colégio ou na faculdade, mas são todos amigos que me admiram e me respeitam por quem eu sou, como eu a eles.

    E eu, particularmente, considero um ato de coragem ENORME da sua parte ter rumado ao desconhecido em busca de um sonho! Tenho uma amiga que foi fazer o mesmo, porém na Suécia (intercâmbio pela faculdade em que estudamos aqui no Brasil, na qual eu fui bolsista de Economia pelo vestibular e ela bolsista de RI pelo FIES). Hoje ela é trainee de uma multinacional na Jordânia e no outono retornará a Suécia para cursar mestrado em RI com bolsa integral e tenho um orgulho enorme dela pela perseverança e coragem para enfrentar o desconhecido.

    Gostei muito do seu texto, Bruna e também dos comentários que li aqui. Ainda que divergentes em bastante coisa provavelmente, somos bem parecidas nisso da busca pelo conhecimento e em fazer sacrifícios por ele (ainda que nenhum dos meus tenha sido tão grande como os seus).

    Beijos e muita sorte e sucesso em sua jornada!!

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    1. Agradeço muito as tuas palavras, é interessante ver que mesmo crescendo e tendo caminhos tão diferentes de vida, ainda consigamos ter tantas coisas em comum nas nossas vidas.
      Acho que não tem como comparar as dores e lutas das pessoas. Coisas que para mim podem ser fáceis, para outros podem ser nada (e vice-versa). Cada um sabe sua história e seus atos “heróicos”, mesmo muitos não fazendo ideia de quais são. Eu cresci cercada de amor, mas sou a pior pessoa para expor meus sentimentos para outros. Ao meu ver, conseguir isso é um ato de coragem enorme.
      Igualmente importante como os atos de coragem, também estão as fraquezas e o jeito que a gente lida com elas. Muito bacana que você se soltou dos embustes na faculdade e se tornou assim como você é agora. Acredito que seus amigos de verdade devem se sentir orgulhosos de ter você na vida deles!
      Abraço.

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  3. Bru, preciso confessar que acho lindo teu jeito! 🙂 Sério, aqui onde moro, as pessoas não dão muito valor a estudo e conhecimento, então entendo o que você passou! haha Sempre fui viciada em saber mais sobre tudo o que pudesse, então eu sempre fui meio esquisita… Hoje meio que gosto disso! 🙂
    E sim, seu ato foi muuuuito corajoso, e continua sendo, em todos os momentos! E não é egoista não, com certeza todos te apoiam e querem te ver crescer!
    Xeros brasileiros!!

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    1. É uma sensação que não dá para ser descrita pensar que essa realidade de não dar muito valor aos estudos é comum no Brasil. Vejo isso até pela minha prima que mora na minha cidade natal, que cresceu praticamente como eu. Adora ler, procurar conhecimento, questionar professores… e já está fazendo inimizades por isso. Ela, como foi no teu caso, já se acha “esquisita” por isso também, e só tem 12 anos. Se depender de mim, vou tentar incentivar o mais que puder esse lado dela. Se ela se achando esquisita se tornar alguém como você também se tornou, isso tudo vai ter valido a pena. E no meu caso, torço para que também seja assim.
      Cada escolha tem seu preço, não é?
      Beijão

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  4. Bruna, a nossa vida é cheia de renúncias né? Seu avô pode ter partido do plano material mas com certeza segue contigo no plano espiritual e sabe que não é egoísmo, mas que é seu caminho. Encarnados ou não, todos aqueles que te amam e que te apoiam estão contigo nessa luta. Não é fácil e é muito corajoso viver longe dos seus, mas o amor é algo que ultrapassa a barreira do espaço e do tempo. Segue firme na tua jornada garota!

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    1. Já cantava Charlie Brown Jr. “Cada escolha, uma renúncia, isso é a vida”…. Eu tento acreditar nisso também, mesmo que essa aceitação ainda doa um pouco no meu peito. Um dia isso tudo vai fazer sentido e minhas escolhas vão ter valido a pena.
      Muito obrigada pelo carinho, Grazy! Te desejo muita firmeza também 🙂

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  5. Está ai um ato de coragem que preciso urgentemente ter: sair de casa. Nunca senti necessidade enquanto estava no meu concurso segura e feliz, mas essa fase durou tão pouco, tudo começou a me incomodar, e comecei a me estranhar e hj vejo que está na hora de seguir meu rumo. A gente tem mesmo essa coisa de achar que sair significa não amar a familia, egoismo, mas é algo precisamos aprender a passar alguma vez. Não teria coragem mesmo de sair do Brasil, e felizmente meus sonhos estão aqui, mas talvez não na minha terra natal
    Boa sorte com seus sonhos, sei que vai conseguir tudo e o amor q aprendeu com seus avós sempre estará com vc
    Bjs

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    1. Se eu tivesse tido a oportunidade no Brasil de estar fazendo o que eu faço agora, nunca teria saído de lá. As vezes a força maior e a ambição nos tiram de onde queríamos estar. É ótimo estar correndo atrás dos meus sonhos e vontades, mas o preço que se paga por fazer isso é grande demais. Mas assim é a vida, não é? Não se pode ter tudo.
      Fique feliz por estar entre os seus, isso é um presente. Cuide bem de todos também!
      Obrigada pelo comentário amigável, fiquei super contente 😀
      Te desejo também muita sorte e sucesso na tua jornada, onde quer que tu estejas!
      Beijos

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      1. Verdade, o pr do que se paga pode ser alto, mas se permitir correr atrás do que se ama e viver a vida que sonhamos é um grande ato. De acordo com as minhas pesquisas vou estar umas 8 horas de casa de ônibus, talvez durante uns anos, dá pra vir sempre que precisar rs. Mas ainda tenho q terminar minha faculdade, até lá muita coisa pode mudar. Enquanto isso vou curtindo a família e jogando uns verdes para esse ato.
        Boa sorte com seus sonhos

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    1. Oi Isa!
      Meu sonho maior sempre foi a educação, conquista de conhecimento e qualidade de vida. No Brasil, como morava bem no interior, mal tinha contato com o mundo afora. Não teria a oportunidade de cursar faculdade em uma federal e muito menos pagar o aluguel em uma cidade grande. Emprego bom? Sem experiência e faculdade (curso técnico) era impossível de achar. Para alguém que sempre gostou de estudar, me manter longe disso só me machucava.
      Aqui, depois que eu melhorei o alemão, já ganhei a oportunidade de fazer o que no Brasil seria a faculdade de Pedagogia. De graça!!!!!
      São renúncias? Sim. Tenho saudades de casa? Quase sempre. Mas estar aqui é só um passo que me leva pra frente.
      Acho que esse é o meu sonho hahahaha
      Te desejo muita força também!
      Beijo

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  6. Bruna, vou confessar que teu relato me arrepiou, e não só no final.
    Fui criada pela minha mãe, mas na casa dos meus avós, e por isso me considero filha deles também. Além da proximidade com eles, há também meus tios, que viviam junto conosco.
    Nas poucas longas viagens que fiz, que não passam de 15 dias, senti um angústia muito grande por estar longe deles, e consigo imaginar um pouquinho do que falou. Evidente que numa escala menor, até mesmo pelo período.
    Tu tens realmente muita coragem, e admiro muito por conseguir manter-se forte.
    Beijão!!!

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    1. Viajar em si não é o problema. Manter a vontade de ficar e continuar tentando é o que mais pesa na consciência na maioria das vezes.
      Uma hora, vai chegar a sua hora de bater as asas e voar, nem que seja só para fazer uma viagem mais longa a um lugar que você tenha vontade de conhecer. Tudo no seu tempo…
      Obrigada pelo comentário, de coração!
      Te desejo somente coisas boas!
      Beijo

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  7. Emocionada lendo seu relato Bruna! Tenha certeza de que seu avô, de onde quer que esteja te olhando, sente muito orgulho! E sim, infelizmente, cada escolha da sua vida implicará numa renúncia. É duro mas a sua vitória está logo ali! Força!!

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    1. Karin querida, obrigada pelo carinho!
      Espero com todas as minhas forças que ele sinta orgulho mesmo, essa sempre foi minha maior motivação. Da mesma forma que a perda dele foi triste, resta a ideia de que eu fui abençoada em ter conhecido e convivido com ele. Isso me leva adiante!
      Um abraço!

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  8. Que texto Bruna,
    Hoje vejo cada vez mais quantas coisas temos em comum, todas nós do grupo fico mesmo impressionada.
    Eu também não tive amigos, os poucos que tive não posso dizer que eram amigos porque não ficaram ao meu lado, se foram sempre, tive colegas então e demorou, só fui ter lá na sexta série porque algumas meninas ficaram com pena de mim e ofereceram ficar comigo no recreio…depois tive uma amiga bem maluca hahaa e hoje ela tá no caminho dela né e tive um, um anjo humano que veio e me ajudou com meus medos…
    Lindo seu texto e não é egoismo não ir atrás do que você acredita, continue lutando sim, vale a pena.
    Beijo e abraço grandeeee

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    1. Sabe Fe, quando eu tinha 6 anos me mudei do interior para a cidade grande. Minha mãe tinha um namorado novo e fomos morar por quase 2 anos com ele, até que o relacionamento acabou. Quando eu voltei, os ensinamentos que tive na escola particular que ia, superavam os dos meus colegas. Eu conseguia ler sozinha e entender textos um pouco mais complexos do que meus colegas, tinha interesses diferentes, gostos aguçados… ninguém tinha vontade de conversar comigo. Era solitária por saber mais do que eu deveria.
      Ver que o pessoal do grupo também tem suas histórias de superação, me faz ver que estou me comunicando com as pessoas certas. Nos tempos de hoje, o fato de tentar viver sem problemas é o que mais motiva as pessoas. Assumir os lados ruins e as coisas problematicas é um verdadeiro desafio. Só o fato de assumirmos e abrirmos nossos corações, já mostra que temos mais coragem do que pensamos ter. É importante falar, se abrir e principalmente se orgulhar dos seus feitos. Viver, como tu mesma já escreveste, é o maior ato de coragem que temos. Escolher a vida e lutar por ela.
      Te agradeço de coração pelo comentário!
      Beijos

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