O efeito que participar de um concurso de beleza causou em mim

Aqui na cidade onde eu moro na região central do Rio Grande do Sul, temos uma Feira Agroecológica de nível regional e estadual. Para ajudar na divulgação da tal Feira e dar um certo carisma e beleza para a imagem que as pessoas tem daqui, eles continuam escolhendo uma Corte de Soberanas para esse fim.

Um certo dia eu recebi o convite para representar uma entidade no tal desfile e sem pensar muito, logo aceitei. Não pensei nas tarefas, nas oponentes, na “vergonha” que eu passaria, mas aceitei de coração pois fiquei feliz que confiaram em mim para eu ser uma das candidatas. Tantas mulheres bonitas para chamarem e escolheram justamente eu? Além de feliz me senti muito honrada também.

O que eu teria a perder?

Foi nesse espírito que eu comecei a me envolver na competição… fui absorvendo toda informação e todo o conhecimento que eu podia juntar, fui crescendo como mulher e construindo uma imagem forte de mim mesma.

Conforme a data foi chegando, também fui recebendo comentários de “você é corajosa de tentar competir por não estar no padrão”, “tu competes já sabendo que vai perder”, “tu acha que tens como vencer daquelas outras meninas bonitas?”,…

Foram comentários maldosos, que doeram muito em mim. Não é fácil escutar críticas desse tipo quando se está numa posição dessas e já tem problemas de aceitação, mas cada palavra proferida me fez aprender mais sobre mim mesma e aceitar o feminismo e a quebra de barreiras na minha vida.

desfile soberanas (2)

O desfile aconteceu, eu não fiquei entre as escolhidas. O primeiro momento foi de tristeza, o segundo de alívio e o terceiro foi de gratidão. Posso dizer que tudo o que fazemos de coração acaba deixando marcas em alguém ou em alguma história. Tentei mostrar uma figura de jovem/mulher forte, que sabe o que quer e que se sente bem como está. Pensei na minha candidatura como uma imagem de força para todas as meninas que não se inscreveram por não se sentirem no tal padrão que queriam me encaixar.

desfile-soberanas

O trajeto foi difícil para o meu psicológico, mas me mostrou lições que me fizeram mudar completamente minha visão sobre meu corpo. Em fatores de beleza e o formato de corpo típico de misses, eu vi que meu problema não era só o fato de me arrumar, andar pelas ruas com postura e ensaiar o passo pivô na frente de espelhos, mas sim aceitar que eu estou fora desse tipo de padrão. Os comentários maldosos tinham sim fundamento: Eu não tenho mais que 1,70 de altura, peso mais que 50kg e meu corpo tem sim curvas e relevos. Eu não tenho o cabelo comprido, não tenho uma pele lisinha e bronzeada. Não tenho a quem enganar… mas nem só disso que depende uma candidatura e quem sabe até o posto de Rainha do Município.

O fato de não estar nisso, me levou a ler mais sobre os movimentos de body positivity e body neutrality, o que me deixou reflexiva em dois sentidos:

  1. Que tipo de sociedade doente é essa que faz uma mulher acreditar que é inferior sendo que cada corpo é único? Por que me fizeram acreditar a vida toda que eu sou gorda quando na verdade eu sempre estive perto do meu peso ideal e nunca no sobrepeso? Por que me fizeram pensar que eu deveria me sentir inadequada por ter umas gordurinhas aqui e ali, sendo que eu sou saudável?
  2. Vendo sobre exemplos de corpos que seguem o movimento, me deparei com pessoas gordas que não enxergam a palavra “gorda” como ofensa. Vi também pessoas com deformações físicas, problemas de pele, ausência de cabelo, magérrimas… todas se amando e se curtindo como são.

desfile-soberanas-geral

Poder participar disso tudo me fez ver que eu tenho muito ainda o que aprender. Aprender sobre mim, sobre minhas neuras, minhas paranóias, meus preconceitos. Aprender que o que importa é como eu me sinto, não de como me enxergam. Me ver como pessoa completa, que mesmo com um defeitinho aqui e ali, também tem sim uma e outra qualidade. Pensar, refletir e convencer mais gente também que se amar não é um luxo, mas sim um ato revolucionário.

E você? Já participou de algo do tipo? Já se defrontou com essas questões? Me escreva!

Beijos,
Bru

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